Não era uma noite, era um complô. Encaro a geladeira fechada e tento repassar na minha mente tudo aquilo que ainda preciso preparar para a ceia de Natal. Falta o arroz colorido, a "batatonese", a salada e... ah, meu Deus, a leitoa! Esqueci te tirar a pobrezinha do freezer. Definitivamente, não vai dar tempo. O cheiro de comida já havia colonizado o interior da casa e me fez apagar da memória o prato principal. Abro a porta do congelador e, como numa acrobacia digna de um duplo twist carpado, a bichinha me atinge num golpe inesperado. Socorro! Olho para o relógio e uma gota de suor escorre pela minha testa. Os convidados já estão prestes a chegar e - além de não ter me arrumado ainda - tenho um monte de coisas para organizar. Devolvo a leitoa ao freezer e solto um longo suspiro em forma de mantra: "ninguém vai lembrar de você hoje. Ninguém!". Na mesa, um PãoPai Noel parece me observar com um olhar de desaprovação. Aproveito e coloco ele no forno ao tempo de escutar "então... é Natal!" ecoando em volume máximo pela casa. Juro, estou seriamente pensando em esconder esse cd junto com a leitoa no freezer. Sediar o encontro anual da família aqui em casa - de última hora - já está se mostrando uma prova de fogo. Ou de gelo, se assim preferir.
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Na sala de estar, Bernardo e Benício passam as instruções do manual sobre "como montar sua árvore natalina em 10 passos". Não sei quanto tempo já se passou desde que eles buscaram a caixa com todo o material até esse exato momento, mas pelo semblante da dupla infalível isso parecia uma eternidade de dúvidas no ar. Ao perceberem a minha presença no cômodo, Benício corre desembalar os pedaços do que promete ser uma imponente árvore de um metro e noventa e cinco centímetros de altura - que, no momento, mais parece um pinheiro atropelado. Enquanto isso, Bernado inicia sua luta para desfazer o emaranhado de nós que dominavam os fios das luzes de enfeite. O desafio estava lançado e cada um tinha que colaborar com a sua parte. Aposto que os meninos vão resolver isso mais rápido do que passar de fase no Zelda. Bom, assim espero.
Vou tomar um banho vapt-vupt e, ao fechar o chuveiro, continuo escutando o barulho de gotas d'água caindo. Elas golpeiam o vidro da janela cada vez com mais força. Não acredito. É chuva! "Gente, recolhe as mesas e as cadeira lá de fora. Rápido", dou um berro de dentro do quarto. Era só o que faltava, ter que mudar toda a festa para o interior da casa no último minuto. A campainha toca implacável e a família começa a chegar. A movimentação logo toma conta da residência. O burburinho de conversas paralelas preenche o ambiente e coloca o gogó de Simone em segundo plano. Ufa! Sim, esse cd está tocando em looping eterno aqui. As crianças se dispersam e fico curiosa para saber qual rumo tomaram. Porém, deixo o trabalho de manter os pequenos sob vigilância para os seus respectivos pais e acompanho uma turma munida de quitutes até a cozinha.
Ao redor da mesa, um pelotão de parentes começa a se alternar entre tarefas culinárias e pequenas discussões. É complicado conciliar um espaço pequeno, múltiplas funções e diversas linhas de pensamento. A matriarca da família, Giovanna, aparece na porta e pergunta: "tudo certinho por aqui? Vai ter aquela tradicional leitoa assada, né?". Gelei. Antes que eu pudesse responder, a ala vegetariana do pessoal se pronuncia indignada: "não acredito que vocês ainda não abandonaram esse costume!". Alguém interrompe as duas partes e solta: "tem alguma coisa no forno? Tá cheirando queimado". Ah, não, o PãoPai Noel! Pego um pano e rapidamente retiro a massa de lá. Ho-Ho-Ho. Era uma vez um senhor de barbas tostadas e um leve sabor amargo. Ele está a cara de um pirata após uma batalha com muita pólvora envolvida.
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Conforme as horas avançam, eu continuo me esquivando dos comentários insistentes: "e a leitoa?"; "Nossa, e aquela leitoa que vocês fazem?"; "Cadê a leitoazinha?". Leitoa, leitoa e leitoa! Caramba, cadê o tal do tender recheado da tia Rebeca? Cadê a lasanha de mil queijos do vô Thomas? Cadê o pavê de chocolate triplo da tia Valentina? CADÊ A SIMONE? Alguém finalmente trocou aquele cd. Ótimo! Agora é a vez de escutar "Let It Go" até o amanhecer. No último "cadê", eu explodo: "vocês querem a leitoa? Tá aqui a bendita leitoa!". Em um movimento brusco, abro a porta do freezer e a porquinha desliza pra fora do compartimento quicando em alta velocidade pelo chão da casa. Como num passe de mágica as crianças reaparecem seguidas por Billy, o nosso cachorro, que dispara a correr atrás do alvo congelado tentando abocanhá-lo. "Peppa!", os pequenos entoam em coro ao ver a inusitada cena. O badalo do relógio indica que é meia-noite e, automaticamente, o tio Heitor entra na sala vestido de Papai Noel. Mais surpreso do que todo mundo, ele deseja um tímido "Feliz Natal". A gargalhada toma conta da noite e todos partem para os cumprimentos. A partir dessa data, a história virou uma espécie de relíquia de família - contada anualmente nesse mesmo dia, em versões diferentes. Essa foi a minha vez.
(p.s.: lembram do projeto árvore? A dupla de B's surpreendeu na decoração!)
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| (Foto: reprodução/Facebook - Arquivo) |
Já teve uma missão natalina? Conte para o Meg's a sua história marcante nessa data festiva!
Emily Antonetti







