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"Conversas Incompletas" - (Parte 2)


Não sei por quanto tempo tenho estado aqui. Parada. Afundando os dois pés na areia e observando o movimento do oceano. Pensar que existe tanta coisa além dessa imensidão é algo inevitável. Fecho os olhos e continuo ali, sentindo o verão quase tocar a pele - quente e gracioso. O som da maré é hipnotizador. Tão sedutor quanto o canto das sereias em meio às águas. A brisa gelada me atinge em cheio num arrepio elétrico dos pés à cabeça. Dou um pulo em resposta e escuto uma risada abafada próxima a mim. Não estou sozinha.


Sem rodeios, olho para o lado e flagro um rapaz me encarando com a expressão totalmente divertida. Ele nem disfarça. Ao contrário, ele caminha na minha direção como se já me conhecesse. "O segredo é não pensar demais e ir!", o desconhecido diz e aponta pra algum lugar. Noto um sotaque pesado naquela frase e logo analiso na minha mente a figura ao meu lado. A pele bronzeada reluzia ao sol, o cabelo ondulado tinha o mesmo humor que as ondas do mar e o rosto, mesmo que relutante, parecia adorável. 

Percebo que ele continuou a falar e eu não escutei nada. "Ahm? Ir? Não, não, não, não. Você quer dizer pra água, né?", pergunto meio confusa. Ele ri e responde: "sim, não é isso que você tá ensaiando até agora? O que mais seria?". Disfarço, meio sem graça, e penso em me apresentar na tentativa de mudar de assunto. "Meu nome é Lorena! Você é...?". "Nicolas", o garoto me cumprimenta estendendo a mão. "Me diga, Nicolas, você sempre aborda pessoas estranhas na praia e dá conselhos motivacionais?", questiono em tom de brincadeira. "Ah, não. Isso seria rude demais, minha cara! Só faço isso em casos extremamente necessários", ele responde com o semblante sério. Logo continua: "sabe, Lô, às vezes as pessoas precisam de um empurrãozinho amigo. Tudo o que eu faço é ajudar os necessitados!". 

Olha só, o rapaz é espirituoso. Ponto pra ele. Mas, convenhamos, já está começando a me irritar com esse papinho furado. "Então, quer dizer que sou um caso de caridade?", indago sem hesitar. "Na verdade, o seu caso seria de curiosidade", ele corrige sorrindo cheio de confiança. "Uhm, sei. Só que, pelo visto, você não segue os seus próprios conselhos. Está numa praia totalmente vestido e sem nenhum resquício de ter se molhado antes", argumento. "É, você tem razão! Tava esperando companhia pra encarar a água! Vamos?", Nicolas me convida. "Obrigado, mas vou passar! O mar tá congelante. Dá pra sentir daqui", recuso sutilmente. "Nem vem com essa, senhorita! Cadê a coragem?", ele provoca. Resolvo arriscar na mesma moeda: "corajoso, duvido que você consegue entrar e ficar mais de cinco minutos nesse recipiente gigante de cubos de gelos derretidos". "É um desafio? Eu topo! Aliás, se eu ganhar, coisa que irei, eu vou escolher o meu prêmio, ok?", ele impõe os termos ao correr em direção à água. Concordo com a cabeça e espero não estar errada nessa aposta.

De longe, consigo escutar um pequeno grito e o som de gargalhadas nervosas vindo do oceano. Eu tinha razão, está de bater o queixo. No entanto, a cena é engraçada. O aventureiro se jogou de roupa e tudo na água gelada. Só abandonou a carteira e o celular na areia antes de sair em disparada ao seu destino. A camiseta boiava, se enchia de ar e pesava novamente. Em pouco tempo, Nicolas já estava brincando e mergulhando sem pestanejar. Ao terminar seu ritual de honra, sai do mar todo orgulhoso e me ergue bruscamente em comemoração. Meu vestido fica ensopado e o frio me abraça. 

Ao me colocar no chão, ele me encara e diz: "você agora me deve um segredo, Lô!". Ufa, algo relativamente simples. Ou não. "E se eu não tiver nenhum?", pergunto. "Pode pensar com calma, eu deixo. Só não esquece que um dia vou cobrar!", ele afirma e me puxa em direção à um restaurante. "Agora, agora, o que a gente precisa é se aquecer e devorar um prato de batatas fritas. Que tal?", o garoto fala empolgado. "Por mim, está perfeito", concordo com ele. Sento na mesa do quiosque e volto a observar o mar. Sempre adiante. Um futuro repleto de promessas, ainda que incerto. Não estranho o sal em meu corpo, nem a possibilidade do amanhã. Se é destino ou apenas um encontro ao acaso, tenho a sensação de que isso é só o começo. Não sei quanto tempo tenho estado por aqui. Me parece uma eternidade. Meu coração sorri.

Emily Antonetti
    
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10 comentários:

  1. Parabéns pelo textos, muito lindo! :')

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com

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  2. Adorei essa história, principalmente o Nicolas e a Lorena! Deu um gostinho de quero mais, hahah
    Espero ler mais algum texto seu, amei! Parabéns, continua assim xD
    Beijos!

    http://our-constellations.blogspot.com.br/

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    1. Poxa, Ana, muito obrigada! É bacana saber que curtiram o texto. :) Essa história dos dois ainda tem muito chão pela frente. Você ainda vai ouvir falar de Nicolas e Lorena pelo blog. hehe

      Beijo, beijo.

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  3. Amei esse texto! Muito lindo..

    https://isabellamadureira.wordpress.com

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  4. Olá,
    Muito bom o texto, super bacana =).
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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    1. Valeu, Inês! Fico feliz que gostou do texto! Logo, logo... dou sequência! hehe :)

      Beijo, beijo.

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